E uma nova etapa se inicia…

•Maio 6, 2009 • 1 Comentário

Após dois anos num estado de semi permanência em Praga, chegou a altura de iniciar uma nova etapa na minha relação com esta cidade, com este povo, com este país. Foram cerca de doze meses a calcorrear trilhos, cantos esquecidos, paragens abandonadas, paisagens de sonho… e durante todo este tempo a informação foi sendo absorvida, o conhecimento acumulou-se. Em suma, modéstias colocadas de parte, tornei-me um conhecedor. E como o corpinho precisa de alimento e outros luxos, os olhos precisam de viajar e ver outras paragens, decidi financiar esta rica vida com um novo negócio: voilá, agora guio passeios na República Checa. Por caminhos onde nunca um turista chegou. Bem longe das grandes atracções turísticas.

A ideia nasceu em redor de uma mesa e de umas poucas cervejas. Era o fim de um dia pleno para um grupo de amigos. Durante o dia, tinham andado por ali, em busca de um par de castelos medievais, na paisagem verdejante da Primavera checa. E, nessa noite, foi criado o projecto Czech Fun Fan.

Pretendemos mostrar cantinhos perdidos, que se mantêm virgens perante o afluxo constante de turistas. Explorar locais assombrosos, como ruínas industriais e militares, erigidas em todo o seu esplendor socialista, e agora votadas ao abandono. Trilhos de montanha que se estendem por entre imponentes maciços rochosos, plenos de vida selvagem. Queremos mostrar um país ainda por descobrir, partilhar as maravilhas do queijo checo empurrado com uma fresca cerveja local, em locais onde provavelmente nunca um estrangeiro entrou antes.

Especial atenção é colocada nos pequenos detalhes que fazem a diferença: porque adoramos partilhar os segredos que conhecemos com pessoas que os sabem apreciar, os nossos programas não se resumem às visitas papagueadas. Quando saímos com um grupo, não esperem de nós o papel de cicerone escolástico. Recusamo-nos a decorar os factos e datas, as curiosidades que são habitualmente debitadas a grupos de turistas boquiabertos. Em vez disso, fazemos o nosso melhor para vos fazer chegar ao país profundo, com mão segura, escolhendo os melhores meios de transporte, indicando inequivocamente os trilhos a seguir, enquanto conversamos sobre a experiência de vida neste país, a natureza do povo, a sua história e aspirações. Tudo isto acompanhado de dicas e orientações para o resto da estadia em Praga.

E aqui está: http://www.czechfunfan.com

Praga. República Checa.

•Outubro 12, 2008 • 1 Comentário

Talvez lenda, talvez facto: a palavra corrente por aqui é que uma das consequências do longo encerramento das fronteiras na antiga Checoslováquia, foi o desenvolvimento de um apurado gosto entre os checos pela caminhada. A verdade é que por aqui é possível nas papelarias mapas de detalhe de qualquer região da República Checa. Por esse campo fora, sobretudo nos fins-de-semana mais solarengos, os trilhos criteriosamente marcados enchem-se de caminhantes. Foi em meados do século passado que o clube de caminhantes da Checoslováquia inventariou e assinalou uma infinidade de trilhos, atribuindo-lhes quatro cores caracteristicas: vermelho, verde, azul e amarelo.

Torna-se assim fácil para o amante da natureza e da marcha passar um dia em cheio, tendo como única dificuldade a selecção do percurso, de entre a enorme variedade disponível nesses mapas-roteiros que se compram por tuta e meio em tanto posto de vendas.

Para este Domingo escolhi Cesky Raj, que significa “paraíso checo”. É uma região montanhosa, pejada de antigos castelos e ruínas de fortificações ainda mais antigas, com trilhos que se desdobram por entre impressionantes formações rochosas.

Um dos melhores acessos à montanha faz-se a partir da pequena cidade de Turnov, para a qual me dirigi pela manhãzinha, apanhando um autocarro na estação central de Praga. Na companhia de três amigos a suave ascenção iniciou-se por entre a bruma matinal, que insistiu em nos acompanhar até meio da tarde. O carácter outonal da paisagem está bem marcado pelas tons quentes do ouro das folhas que mesmo à nossa frente se desprendem das árvores. Aos poucos as últimas casas que pintalgam a orla da cidade ficam para trás.

Subitamente deparamo-nos com um misterioso conjunto de estátuas talhadas em madeira. O lugar exala um misticismo reforçado pela neblina que nos envolve. Dir-se-ia um sacro local de culto, mas afinal as figuras foram ali colocadas por um grupo de estudantes de Belas Artes. Logo ali à frente encontra-se uma torre de observação imponente, junto à qual se reunem caminhantes de todas as idades. Caso para dizer, sem exagero, dos 7 aos 77 anos. Há mesas em rija madeira e um ponto de vendas de refrescos. Também nós, depois do deslumbre da vista lá do topo, fazemos uma pequena pausa por ali.

A viagem prossegue ate Valdstejn, um castelo cuja visita dispensamos. Daí em diante entramos num caminho que oferece vistas espectaculares sobre as famosas formações rochosas. Muitos checos aproveitam o Domingo que se vai tornando solarengo para um dia ao ar livre. Os trilhos estão cheios de pessoas que tranquilamente disfrutam do que a Natureza tem para lhes oferecer. Nisto, estamos já em Hruba Skála, que planeávamos visitar. Infelizmente uma festa privada não permite a entrada de simples turistas nos terrenos desta castelo tornado palácio, numa bizarra sobreposição de estilo e função. Ali ao lado, um hotel de luxo permanece solene, como que desconfiado da baixa estirpe das vizinhas barracas de comes e bebes, logo defronte, do outro lado do parque de estacionamento.

A partir daqui deixamos de nos cruzar com colegas de passeio. Entramos na última fase do nosso percurso, já no troço descendente, deixando a montanha para trás. O que nos rodeia agora é uma impressionante floreste de coníferas altíssimas, com frequentes rochedos incorporados, que nos espreitam de um lado e de outro. Passamos junto a imponentes prados de vegetação bem verde. Aproximamo-nos de um dos momentos altos do dia: junto a um lago de consideráveis dimensões ergue-se uma parede de rocha à qual trepo, para me deparar com uma paisagem magnífica. O sol está já baixo e todo o cenário se encontra banhado por uma luz dourada que intensifica ainda mais as tonalidades da folhagem decadente. Na calmaria das águas, um ou outro peixe salta, em busca de um fugaz pedaço de alimento, quebrando o silêncio envolvento com esses casuais “splashes”.

O passeio está a chegar ao fim. Já não haverá tempo para visitar o castelo de Trosky, mas conseguimos avistá-lo ao longo, majestoso, assustador. Atravessamos um lugarejo constituido por casas tradicionais, cada uma mais espectacular que a anterior. Parece que remontam aos séculos XVIII e XIX. Algumas têm ainda nos terrenos adjacentes velhos instrumentos agrícolas e estruturas de apoio ao abandono. Por todo o lado existem macieiras, que nos oferecem uma infinita quantidade das maçãs mais suculentas que já experimentei: vermelhinhas, doces, saborosas, sumarentas. E com isto a noite quase que caiu. Chegamos ao troço final, já perto da estação de comboios, quase em passo de corrida. Nos campos, ali planos, a neblina nocturna desperta, levantando-se fantasmagoricamente, rodeando-nos como um nevoeiro até ao peito.

Pela frente teremos uma hora de espera num velho apeadeiro, que aproveitaremos da melhor maneira, dançando ao som de telemóvel, revivendo as aventuras do dia, tagarelando por vezes sem sentido. Foi um longo dia que chega agora ao fim.

Praga. República Checa.

•Setembro 28, 2008 • 1 Comentário

Depois de quatro ou cinco meses de interregno, ai está ele, o desejado, o aguardado, o ansiado, o esperado… regresso. Cheguei ontem, hoje o dia está preenchido. É isto, viver em Praga. Plenitude, dinâmica, variedade.

É dia 28, último Domingo de Setembro. Foi este senhor dia que se tornou responsável pela data precisa do retorno à Cidade. Desde que soube que o Museu Técnico do Exército encerra todos os anos no último Dia do Senhor do nono mês que tive a certeza que teria que cá estar por essa altura.

A visita era para ser feita na companhia do amigo Clabbe, sueco de gema, como eu interessado nestas coisas da história militar. Mas quis o acaso do destino e a senilidade crescente deste que vos escreve, que acabasse esperando por ele na estação de Metro errada. Resultado: após muito praguejar e amaldiçoar uma alma inocente, apercebi-me da asneira e voltei em passo acelarado para casa, com o rabinho bem entre as pernas, para consultar os horários dos transportes públicos e procurar uma solução de recurso.

Pois bem, ainda havia tempo. À uma da tarde, autocarro em Budejovicka. Tinha tanto tempo disponível que acabo por me distrair e dou por mim atrasado, em risco de perder definitivamente o desejado programa. Chego afinal com dez minutos de avanço à zona dos autocarros, mas entro em pânico. Não encontro! Não sei onde procurar. Esqueci-me do “post it” com as indicações em cima da secretária! Tenho uma vaga ideia do nome da aldeia onde devo sair e atrevo-me a abordar um casal com aspecto de quem fala inglês. Abençoada hora! Falam mesmo, e, apesar de não conhecerem nem o museu nem a aldeia que eu procuro, acabam por ser a minha salvação. Vai-se a ver e é mesmo aquele autocarro que eles estavam prestes a apanhar. Bem debaixo das minhas barbas. E pensar que esteve quase a escapar-me por entre os dedos.

O pesadelo acabou. Agora tudo parece correr bem. Vou sentadinho sozinho num banco para dois… até que o elemento masculino do casal salvador se senta ao meu lado de mapa na mão. Descobriram onde fica o museu que procuro… e aconselha-me a sair uma série de paragens antes e apanhar um caminho pedestre, muito mais interessante, diz ele. Sem dúvida muito mais interessante… se eu não estivesse coxo. Mas não consegui fazer a desfeita e com um sorriso amarelo apeei-me mesmo ali, onde me aconselharam.

O tal trilho era de uma dificuldade incrivelmente alta, com trechos muito maltratados, árvores caídas sobre a passagem e pedregulhos para escalar. Aquilo que se antevia uma tranquila marcha de 400 metros tornou-se num caminhada de 4 km que durou quase duas horas. Quando finalmente cheguei ao museu, mancava de forma descarada e tinha apenas uma hora e pouco para disfrutar da exposição.

Mas valeu a pena. Desfilaram diante dos meus olhos equipamentos militares dos quais tanto ouvi falar ao longo da vida, mas que nunca tinha visto assim, diante dos olhos… a coisa real. Lança-misseis, veículos blindados, tanques de guerra. Tantos. Tão interessantes. De todas as épocas. Entrei em modo de fascínio completo. A pobre Nikon trabalhava incessantemente. Click para ali, click para aqui. Ainda pensei que com a maré de azar com o que o dia se iniciara, não seria de admirar que a bela da câmara encravasse. Mas não. Portou-se lindamente e permitiu-me trazer para casa umas mãos cheias de excelentes imagens. Ainda fascinado com os T-34, os SCUD, os T-72, os T-55, os BMP-1, entrei na zona da exposição coberta. Tinha apenas meia hora para aquela área. E precisaria de pelo menos trêz vezes mais de tempo. O conceito museológico aplicado foi uma surpresa positiva. Positivissima. A recriação de espaços e de épocas foi feita em rigor. O acervo é riquissimo. Mas só tenho tempo de atravessar os pavilhões em passo rápido e de disparar umas quantas fotografias. Saio. Sou aparentemente o último visitante do ano de 2008. Acho que merecia uma prenda comemorativa, até porque deixo uma generosa nota no livro de visitantes.

Voltar pelo mesmo caminho está fora de questão. Antes de ambulância ou de táxi. Mas eu sei que passa ali algures o comboio. E mais, sei que uma composição estará no local dentro de 15 minutos. Só que há algo que desconheço: a localização da estação. Felizmente acerto à primeira. Lá esta ela, estou salvo. Sento-me no comboio e disfruto da viagem, depois de comprar o bilhete ao revisor. O único problema: a viagem termina em Vrsovice. Ora não faço ideia de onde fica Vrsovice. É em Praga, certo. Até ai tudo bem. Mas fora isso, estou perdido. Vejo eléctricos, mas não tenho bilhetes. Terei que caminhar, até que encontro dois homens que conversam em inglês, e sou orientado.

O dia está a ser em cheio, mas ainda não acabou. Tinha planeado e tenciono cumprir: assistir à projecção de um filme checo, com as indispensáveis legendas em inglês, no Globe. Descobri este local da primeira vez que visitei Praga, vai para três anos, e apaixonei-me imediatamente pela doce mistura entre livraria, restaurante, bar e cybercafé. E será o meu destino para um serão bem preenchido com a película Jara Cimrman Lezici, Spici, de 1983. Ao saber que apreciei esta divertida comédia, um amigo checo confidenciou-me que estava doravante provado que aprendi a gostar do sentido de humor do seu povo.

Okor. República Checa. 1 de Março de 2008.

•Março 2, 2008 • Deixe um comentário

O combino já vinha de há alguns dias. A ideia era reunir um grupo de amigos e passar uma tarde de Sábado diferente, fora da grande cidade. Os destinos foram colocados a debate e a minha sugestão ganhou força, acabando por ser a escolhida:  as ruínas do castelo de Okor, não muito longe de Praga, a noroeste do centro.

Mas o tempo acabou por nos pregar uma partida, apesar de anunciada. A previsão meteorológica já apontava para um dia de chuva e ventos fortes. Mesmo assim os aguerridos candidatos mantiveram a determinação… que contudo não resistiu à trovoada seguida de forte chuvada, da manhã.

O meio-dia era a hora marcada, e acordei quinze minutos depois. Mas não chovia. Corri para fora da cama, despachei-me com as necessárias lides, e sai apressadamente, pensando que seria ainda possível encontrar o grupo de corajosos resistentes a meio-caminho. Não foi necessário. Um problema com o planeamento tinha atrasado a expedição, composta por… duas pessoas. Consegui apanhá-los uns escassos minutos antes da partida do autocarro, mas não fui o único. Mais três convivas corriam em nossa direcção. Mas estavam ainda a uns bons 200 metros e já não restava ninguém para entrar. Conseguiu-se uma solução de emergência, com uma conversa de empate que manteve o motorista do autocarro quieto e crescentemente impaciente. E assim se juntou o inusitado grupo, como sempre são estes: um português, um americano, uma canadiana, dois checos e um cão.

A primeira etapa iniciava-se na aldeia Velké Prilepy, de onde partiríamos a pé em direcção a Okor, atravessando no caminho uma outra localidade, Noutonice. Que dizer… seguiu-se uma divertida caminhada, com tempo e oportunidade para aprofundar amizades e estabelecer novos conhecimentos.  O vento, soprava raivosamente, com laivos de temporal . Mas a sua fúria mais não fazia que nos divertir. Era vê-los andar às arrecuas, correr com os braços abertos como quem tenta levantar voo. E esperar que ao vento não se juntasse a chuva. A estrada era nossa, e por mais de uma vez fomos surpreendidos por um carro que se aproximava pela calada, coberto pelo vento contrário. Nessas ocasiões restava uma retirada apressada do asfalto, entre sorrisos que enfrentavam as expressões furiosas dos condutores.

À entrada de Noutonice, visitámos o cemitério que ladeava a igreja local. Mágico local, com sepulturas cuja história só os deuses conhecerão. O cinzento que dominava o céu hoje era diferente. Não incomodava, não oprimia. Pelo contrário, fornecia a moldura adequada para o tema, e, desafiado, perdia habitual gravidade.

Mais uma centena de metros e entrámos na aldeia, e no primeiro pub do percurso. Excelente ideia, o refrescamento, num ambiente acolhedor, depois da caminhada exposta aos austeros elementos. Lá dentro, o cenário usual: três meses ocupadas pelos varões da comunidade, alguns já bastante “alegres”, e os restantes certamente trabalhando para o efeito. Sentam-se então estes estrangeiros numa longa mesa livre, e logo são atendidos. Uma cerveja. “Pivo”. Pardál, é a marca. Em checo significa “leopardo”, mas também um homem armado em tal. E é fresca, ligeira, suave. Sobretudo, é barata. A maior bagatela que encontrei até agora na República Checa: 15 Kzc, ou seja, cerca de 0,50Eur por meio litro. E por ali estamos e de repente já os locais estão sentados à nossa mesa, num daqueles momentos que me leva a reflectir sobre a fama – geralmente justificada – que os checos têm de antipáticos. Por alguma razão, permitem-se a estes momentos, que não imaginaria nas terras da lusitana simpatia. Um, tira fotos sem parar, com um telemóvel que é certamente o seu orgulho. Para mais tarde recordar aquela tarde de Sábado em que os estrangeiros pararam no “seu” pub. O outro quer saber de onde somos. E o Josef, um dos nossos companheiros checos, que é rapaz de fazer amigos  por todo o lado com o seu sorriso fácil e trato agradável, não se faz rogado e vai explicando. Depois, vem o inevitável convite para os “shots”.  Lá se toma um, já com os olhos postos no relógio, que se ia fazendo tempo de retomar o caminho. E saímos, no meio de efusivos cumprimento e abraços. Nota de rodapé: parece que naquele pub foi rodada uma cena de um filme pornográfico checo, o que obviamente enche de orgulho os seus frequentadores.

De Noutonice a Okor é já um saltinho. Chegamos à beira das ruínas em menos de nada. O acesso ao castelo está fechado. Não é surpresa, já tínhamos recolhido essa informação. De forma que andamos por ali, a espreitar e tirar fotografias. Aproveita-se o momento para desembrulhar farnéis e trocar géneros: maças por cenouras, bolachas por chocolate. Até que o Josef se lembra de descobrir um acesso ilícito para o interior do castelo. E então ali estamos, num final de tarde mágico, explorando em conjunto, tais 5 e o seu cão, aquelas ruínas majestosas. Espreita aqui, sobe as escadas acolá, brinca aos archeiros nas ameias. E quando nos damos por satisfeitos, fazemos o caminho inverso, saltamos o mesmo muro e descemos o tal carreiro. Falta uma hora para o autocarro de regresso a Praga. E o pub é mesmo ali ao lado. A fome aperta. Comida por estas bandas, só mesmo da pesada… mas… há sopa de alho! Praticamente quase todo o grupo se rende aos encantos da afamada especialidade checa, tão adequada para cortar o frio que se faz sentir por estas paragens. E quem toma uma sopa toma uma cerveja, e por ali ficamos a conversar e a beber até à hora.

Chegados à paragem, uma desagradável surpresa, recebida por todos com boa-disposição: o autocarro que pensávamos apanhar não existe. Agora, só dai por outra hora. Toca a voltar ao refúgio seguro, beber mais umas cervejas, tomar por nossa conta a sala do pub, mudar a música e sentirmo-nos como em casa durante quase uma hora. E agora sim, foi de vez. O autocarro está lá, e, cansados, deixamo-nos embalar até Dejvicka.

Terezin. 9 de Fevereiro.

•Fevereiro 24, 2008 • Deixe um comentário

A viagem é do mais simples que se pode imaginar. Com uma regularidade horária saem da estação rodoviária de Florenc os autocarros para Litomerice, pequena cidade que dista cerca de 3 km do nosso destino. E quanto a Florenc, trata-se de uma estação chave da rede de metropolitano de Praga, onde as linhas amarelas e vermelhas se cruzam. O bilhete para Terezin tem variações de algumas Coroas conforme o autocarro, por isso não se espante se pagar ligeiramente mais para cá do que para lá. Se quiser ir nas calmas, pode adquirir a passagem numa das bilheteiras do terminal. Senão, pode optar por se dirigir directamente ao autocarro (poderá ver a indicação inequívoca do número da plataforma nos monitores espalhados pelo local) e tratar de tudo com o condutor. A viagem, de cerca de 75 km, dura mais ou menos uma hora. Não conte com o anúncio das paragens. Terá que se desenrascar sozinho. Mas não se preocupe porque não tem nada que enganar:  há apenas duas ou três paragens, e como os transportes checos são pontuais, chegará a Terezin à hora prevista. De resto, se for a olhar para o lado direito, verá a “fortaleza menor” sem margem para dúvidas. Já agora, esse será o momento de tomar uma decisão: se desejar visitar primeiro essa área, deverá sair na paragem seguinte e caminhar 500 metros para trás. Se preferir iniciar o passeio por Terezin propriamente dita, então há que esperar pela segunda paragem, que o deixará precisamente em frente ao museu do Ghetto e a um excelente painel informativo interactivo.

Mais por ignorância de uma primeira visita do que por escolha racional, saímos na primeira paragem mas caminhámos para Terezin. Não é grave. Cruzamos o rio Ohre, sepultura final de um número considerável de prisioneiros, e chegamos à localidade. É uma povoação estranha. Como poderia não o ser. Construída como quartel para os exércitos setecentistas, mantém a aparência marcial, com os edifícios dispostos em planta quadrangular. A praça principal exala ainda o cheiro a parada. Todas as ruas são ladeadas de prédios que outrora terão servido de alojamento aos regimentos de sua majestade imperial, antes de serem ocupados pelos hóspedes involuntários e constituído como ghetto judeu nos anos da II Guerra Mundial. Com um passado destes, cujas funcionalidades estão bem patentes na arquitectura, a actual ocupação torna-se bizarra. As pessoas que por ali viverão cruzam as ruas. Algumas lojas podem ser encontradas. Em instalações de cariz claramente militar existem agora oficinas de automóveis. E tudo isto é como se não pertencesse ali. Assemelham-se a fantasmas, ali instalados à falta de outras opções. É uma comunidade aparentemente sem passado nem História, desgarrada, filha de um tempo de contingência, nascida sobre as cinzas de um tempo de dor.

Do ponto de vista do turista, a primeira sensação é de desorientação. Aquilo parece um mundo por descobrir, mas não sabemos por onde começar nem para onde nos dirigir. O tal painel informativo acentua este sentimento, mostrando o quanto há para ver em espaço tão amplo. Decidimos arriscar e partir à descoberta por conta própria. Havemos de encontrar tudo o que procuramos, se a sorte estiver do nosso lado. Começamos por um segmento do perímetro defensivo da antiga cidade-quartel. Sentimo-nos felizes por sermos turistas fora de época. Não se vê vivalma por ali. Imaginamos com felicidade as multidões de visitantes que ali acorrerão nos meses de Verão e durante os fins-de-semana mais solarengos, mesmo fora de época. Mas hoje somos capitães e soldados, senhores das trincheiras, soberanos das muralhas e fossos. Ali mesmo ao lado encontramos o local onde os primeiros “hóspedes” judeus foram instalados. É um anexo de origem militar, hoje entregue a uma qualquer oficina, frente à rua mais periférica de Terezin, onde um pouco mais tarde se constituiu o ghetto.

Continuamos a sentir a falta de um apoio turístico. Marcas de um circuito, painéis informativos, setas… eu sei lá… algo que oferecesse uma mão amiga ao visitante, que o fizesse sentir que está a ir no bom caminho e que o enquadrasse perante o muito que vai desfilando frente aos olhos. Assim, é com alguma felicidade que encontramos um elemento que fazia questão de visitar, pelo seu macabro simbolismo: a antiga linha de caminhos-de-ferro que transportava os prisioneiros até ao seu indesejado destino, e os conduzia, mais tarde, para aquela que para muitos seria a morada final. Hoje, os comboios já não passam ali. Mas basta um pouco de imaginação para ver aqueles cavalos de ferro, bafejando vapor, cuspindo faúlhas, chiando no seu esforço pleno de tracção. Ali encontramos uma placa indicando o crematório, e para lá seguimos. O edifício em si não chegámos a visitar. Ficamo-nos pelos cemitérios adjacentes:  o de campas anónimas e o dos mortos conhecidos. Um pouco ao lado, ostentando um dos poucos símbolos comunistas que escaparam à purga de 1989, encontram-se os túmulos dos soviéticos que faleceram em Terezin, logo após a expulsão dos alemães, maioritariamente vítimas das febres endémicas que por ali grassavam.

No regresso, já com a ideia na “pequena fortaleza”, fomos vendo outras instalações, daquelas do tempo dos exércitos a sério, com fardas garridas, cavalos e espadas. Aqui e ali existem tabuletas nos edifícios, explicando funções e missões. Vimos com divertimento uma imponente padaria, mesmo em frente a um outro belo prédio, este sem qualquer indicação, mas com a majestosidade de um quartel-general ou a dignidade de uma residência de oficiais.   Depois, por mero acaso, encontramos o local que funcionava como morgue durante os anos negros.  Hoje é um espaço-museu, intencionalmente sombrio, mantendo o ambiente de outrora, com alguns caixões por usar ainda por ali espalhados, e as longas mesas onde os cadáveres eram preparados para as cerimónias fúnebres.  Em algumas salas foram colocados placards com documentos e desenhos feitos pelos prisioneiros, ilustrando os horrores da vida e da morte. Mais uma vez sentimos as consequências da falta de informação: encontrámos este interessante espaço por mero acaso, quase por intuição. Tem-se acesso a ele através de um túnel cuja boca nem se encontra localizada directamente na rua. A coisa torna-se tanto mais bizarra quanto não existe qualquer vigilância no local. Entrámos, visitámos, com toda a calma. E saímos sem termos encontrado qualquer presença humana. Nem funcionários, nem colegas turistas.

O Museu do Ghetto foi intencionalmente deixado para trás. Simplesmente não estamos interessados, até porque o tic-tac do relógio não pára. O sol entrou já na sua fase descendente e ainda temos o prato forte pela frente. Até aqui isto tem sido coisa para meninos, por assim dizer. A vida no ghetto seria dura, mas as vítimas ali enterradas são na quase totalidade idosos. Pessoas de 70 e muitos anos, nalguns casos até mais que isso. Mas na “fortaleza menor” a história é outra. Se os habitantes do ghetto eram judeus a quem não eram concedidas condições de vida adequadas,  os “hóspedes” da “fortaleza menor” eram prisioneiros da Gestapo e detidos em trânsito para outros campos de concentração, preparados para execuções em massa.

Antes de penetrarmos no espaço murado, visitamos um outro cemitério, simbolicamente dominado por uma enorme cruz e uma estrela-de-David de grandes dimensões. Por alguma razão este ganhou a denominação de “cemitério nacional”; os outros, não.

A visita à “fortaleza menor” é paga. O que me recorda que não houve tempo para visitar o Aquartelamento de Brandenburg, em Terezin. Na realidade, existem dois tipos de bilhete: o mais simples, custa 160 CZK e dá acesso ao Museu do Ghetto e à “fortaleza menor”; por 200 CZK o visitante pode visitar também o tal Aquartelamento de Brandenburg, transformado em espaço-museu, onde a vida de antigamente é recreada numa série de salas.

Portanto, pagamos e entramos, não sem antes pedir à funcionária que troque a pagela em espanhol por uma outra em inglês. Pela primeira vez sinto o conforto de quem sabe exactamente o que vai ver e por onde se deve dirigir. Este material de suporte está bem elaborado, com um mapa geral das instalações, onde uma série de números indicam os pontos de interesse, que depois são individualmente explicados. Tudo isto complementado com um texto informativo geral. As casinhas dos horrores sucedem-se. Gosto da linha de conservação seguida pela administração: os espaços são mantidos quase vazios, apenas com os objectos que foi possível preservar. Os grosseiros beliches nas salas de detenção, algumas caldeiras, os lavatórios e os duches.

Sinto-me um felizardo por poder visitar este museu vivo num dia como estes: cinzento e sem turistas. Depois de passar pelos primeiros blocos de detenção, pela sala de higiene, pela casa das máquinas e pelo hospital, entramos num logo túnel. São cerca de quinhentos metros que conduzem até ao local de execuções.  Tecnicamente nem se trata de um túnel, mas sim de uma passagem criada nas muralhas da fortaleza. Mas a sensação claustrofóbica é a mesma, apesar de aqui e ali a luz do dia penetrar no corredor. Os passos ritmados fazem imaginar os transeuntes de outras épocas. Quando acabamos o percurso, não há dificuldades em identificar o local onde os prisioneiros condenados eram executados: o tijolo da muralha encontra-se ali fragmentado e esburacado. O pelotão de fuzilamento foi estilhaçando a superfície porosa, deixando a marca inconfundível. Ao lado, uma variante: o patíbulo de enforcamento.

O tempo passou a voar. Encontramos o segundo bloco de detenção quase por acaso. É completamente diferente do primeiro. Vê-se que pertence a outra era. Construção muito mais recente, quase moderna. O pátio é de gravilha, dominado por uma torre de vigilância construída sobre o portão de acesso. De um lado, celas individuais, de dimensões reduzidas, mas onde mesmo assim foram acumuladas várias pessoas em cada uma, nos meses derradeiros da guerra. Do outro lado, espaços mais amplos. Parece que foi neste bloco que foram detidos os residentes alemães e os colaboracionistas depois de guerra findar.

São quase horas de encerramento, pelo que é com alguma leviandade que observamos o que ainda falta visitar: a fachada da casa do comando, onde alguns oficiais alemães se encontravam alojados, em alguns casos com as suas famílias; o edifício-quartel, que albergava os guardas; o local onde foi encontrada uma vala comum; os espaços de lazer dos ocupantes – uma piscina e um cinema. E, por fim, o último bloco de aprisionamento, reservado às mulheres, para o qual há apenas o tempo de espreitar.

Praga. 23 de Fevereiro de 2008.

•Fevereiro 24, 2008 • Deixe um comentário

Hoje, fui turista, nesta cidade que é já minha. Não tão minha como dos que por aqui nasceram ou para cá se mudaram há tanto tempo que lhes parecerá séculos, mas, mesmo assim, já minha. Foi Sábado, e o sol esteve cá, alegrando Praga, fazendo os turistas deste fim-de-semana sentirem-se sortudos. Afinal, estamos em pleno Inverno. Quando as temperaturas deveriam estar no negativo, quando a neve devia cobrir as ruas e o vento gélido impedir as pessoas de circular… temos mais um belo Sábado, solarengo, ameno.

Saí de casa sem destino. Apanhei um eléctrico, só porque vinha a passar. Deixei-me levar por ele por duas paragens e apeei-me em Právnicka Faculta. Atravessei o rio pela ponte Chechuv, e deixei-me vir de volta, pela margem oposta. Em Malostranska uma multidão aguardava entrada na Exposição Wallenstein e o Seu Tempo. Pelas ruas de Mala Strana uma multidão de turistas circulava, para cá, para lá, com as suas luzídias Nikon, activas, captando à vontade de cada feliz proprietário. O dia esteve mesmo agradável. E eu, metido por aquelas ruas tão caprichosas, cheias de recantos maravilhosos, de lojas encantadas. Lembrei-me que hoje era dia de futebol e entrei num “Sportsbar” que conheço ali mesmo por debaixo da ponte Karlovo. O jogo Birmingham-Arsenal estava a chegar ao intervalo. Decidi percorrer um pouco mais para voltar pouco depois para a segunda parte. Acabei em frente ao prédio onde em Abril estive hospedado uma semana, e visitei a livraria que está ali à beira. Na ponte, os trabalhos de renovação prosseguem, mesmo ao Domingo, que isto de levar 8 anos a recuperar todo o tabuleiro não deixa espaço para fins-de-semana. E com isto estava na hora de voltar para ver o jogo. Foi divertido. E depois, regressar a casa, pela Karlovo, pejada de gente. Estão a invadir a minha cidade, estes turistas. Gostava que nos deixassem em paz.

Dresden, Alemanha. 11 a 13 de Fevereiro de 2008.

•Fevereiro 11, 2008 • Deixe um comentário

Ter residência estabelecida na Europa Central tem destas coisas: as portas duma mão cheia de países encontram-se abertas. É só escolher e cair inebriado com a variedade, contrastante com toda uma vida encravado em Portugal, onde visitar o estrangeiro é praticamente sinónimo de voar. Para quem está em Praga, passar uns dias em Viena, Budapeste ou Berlim tem a mesma naturalidade com que o algarvio apanha o comboio para ir passar o fim-de-semana a Lisboa. E hoje é a véspera do meu primeiro aproveitamento efectivo da centralidade geográfica. A cidade de Dresden foi a escolhida, por uma série de factores: a proximidade física, a facilidade de alojamento, a beleza natural e o estatuto de mártir da II Guerra Mundial.

A preparação foi escassa e mal cuidada. Umas quantas horas ao computador no serão da véspera e nada mais. O comboio é um meio de transporte caro nesta parte da Europa. São uns meros 180 Km que separam Praga da capital da Baixa Saxónia, mas mesmo assim o bilhete custa-nos 40 Eur (ida e volta). Até ao final de 2007 ainda havia um bizarro desconto para grupos: mais de duas pessoas recebiam uma benesse significativa. Agora, desconto de grupo, só mesmo para grupos… seis pessoas ou mais. A viagem foi dos melhores momentos de toda a expedição: com um compartimento quase por nossa conta, pudemos arregalar livremente os olhos com campos, serranias, aldeias, castelos e fortalezas, cerros, pontes, gentes e mosteiros. E notar a tão evidente diferença entre a República Checa e a Alemanha, mesmo que a sua parte Oriental, tão mais pobre que os parentes ricos de ocidente.

A chegada à cidade. Paramos numa primeira estação, a central. Mas temos instruções do nosso anfitrião para sair em Neustadt. Está instalada a angústia. Será que dali a composição só se deterá em Berlim? Não vimos ninguém a quem perguntar. Um alemão deixa o comboio. Como bom alemão, ou não sabe ou finge que não sabe inglês. Felizmente que se vai estar ali parado uns bons 10 minutos. Acabo por descobrir um jovem casal de namorados que se despede num beijo sem fim. Aguardo alguns momentos. Os segundos passam. Não aguento mais e interrompo mesmo o que se anuncia como um mergulho na eternidade. Sorrimos todos. Eles, embaraçados, e eu, feliz: sim, o comboio pára ainda em Neustadt antes de ganhar balanço até às portas de Bradenburgo.

Portanto, saímos no local adequado, apanhamos o eléctrico devido e encontramos a casa certa em menos de nada. Tudo tal como tinha sido descrito pelo anfitrião. Apresentações feitas, bagagens e tarecos a um canto e vamo-nos à cidade, aproveitar o que resta do dia, que o tempo não será muito.

Um cinzento desagradável domina a cidade. Afinal, estamos em Fevereiro, e aquilo é a Saxónia. O frio aqui é diferente: entranha-se, tal como em Portugal. Está por todo o lado, é uma tormenta. Passaremos os próximos três dias a tentar esquecê-lo.

Visitamos o centro histórico de Dresden. Os seus monumentos são impressionantes, mesmo tendo em conta que tudo o que vimos terá sido quase totalmente reconstruído depois da destruição que americanos e ingleses trouxeram até este local. As imagens valerão as mil palavras deixadas de fora. Depois, regressamos. A nossa anfitriã, que na realidade ainda não tínhamos conhecido, espera-nos. Hoje jantaremos juntos, num serão agradável, pela noite dentro, acariciados pelo calor natural de uma pequena caldeira a lenha.

 

O dia seguinte acorda ainda mais tristonho. Está um frio que penetra nos mais recônditos cantos, enregela uma pessoa até aos ossos. Não há sinal do sol. Um manto tristonho de nuvens homogéneas abateu-se sobre a região. Saimos por ali a pé. Exploramos um pouco da extensa floresta que abraça o bairro onde nos encontramos. Ali, os tons dourados do Outono ainda se encontram presentes, apesar do Inverno ir longo. A natureza é extremamente bela. Um riacho cruza um manto de folhas avermelhadas que ainda não entraram em decomposição. Após esta expedição bem sucedida, caminhamos para a margem do rio. Ali vamos encontrar monumentais moradias, testemunhas de outros tempos, habitadas por fantasmas movidos pela memória distante de quem ouviu falar num estilo de vida que já morreu há muito. Alguns desses espaços estão aproveitados, foram renovados e albergam algo de útil: exposições, restaurantes, departamentos de estudos. A vista sobre o Elba é magnífica. Uma enorme planície estende-se de um e de outro lado do rio. Certamente submersa à menor das cheias, esta “lezíria” é nua, pontilhada aqui e ali por uma árvore excepcional. Por fim decidimos apanhar o eléctrico e descer à cidade. Já não é cedo, e não nos demoramos. Há um certo desencanto. Sentimos que daquilo que temos ao nosso alcance, como turistas efémeros numa terra sem guia, já tudo foi visto, e ainda só passou um dia e meio. Juizo injusto concerteza, mas com a contribuição negativa dos dias cinzentões sentimos que estamos falados, nós e Dresden.

 

Entretanto uma gripe alemã começa a fazer das suas. O cansaço, a fraqueza, a inércia tomam conta do corpo. Ao serão encontramos o nosso simpático Marcus para um jantar conjunto. Estamos naquela que será a zona mais cosmopolita da cidade, mas poucas almas por ali andam. Alguns dos estabelecimentos estão encerrados, outros, vazios. Apenas uns poucos apresentam uma audiência aceitável. Encontramos o nosso amigo no local combinado. Tomamos em conjunto uma agradável refeição num restaurante vietnamita. Excelente companhia, grande conversa. Já pagámos e caminhamos para casa quando nos lembramos de tomar um gelado. Coisa irónica com o tempo que se tem feito sentir e com a gripe que se instala. Mas lá vamos. O local, recomendado pelo Marcus pela qualidade dos seus gelados, está completamente vazio. Uma simpática colaboradora atende-nos. A excepção que reina sobre o tom desagradável dos alemães de Dresden. Um sorriso bonito para trazer na memória, e ainda por cima um sorriso que se exprime em inglês desenvolto. O sentimento deve ser mútuo, porque quando perguntamos se estamos a ser inconvenientes e se ela quer fechar a loja, responde-nos que não, para estarmos completamente à vontade; mas quando finalmente saímos, vimos que barra a entrada a um pequeno grupo de espanholas. Well done!!

O terceiro dia foi considerado sem efeito por unanimidade. O tempo desagradável mantém-se e a gripe agrava-se. Apanhamos um comboio a meio da manhã. Durmo durante boa parte da viagem.

 

Praga. 31 de Janeiro de 2008.

•Janeiro 31, 2008 • Deixe um comentário

De regresso a Praga. Aqui sou feliz. Um outro eu, diferente do que conheci durante 40 anos. Esta cidade é agora sangue do meu sangue, parte integrante do meu sistema. Reconhecida a incapacidade de aprender a língua, continuo a absorver todos os pedacinhos de informação que sinta poderem contribuir para uma melhor compreensão da alma deste povo e desta terra. Na minha mesa de cabeceira acumulam-se leituras que abordam a história e as tradições dos checos. Leio de momento Café Europa, da jornalista croata Slavenka Drakulic. Ironicamente tem-se revelado das mais esclarecedoras fontes de compreensão das gentes que agora me rodeiam. Numa série de crónicas, Slavenka revela-nos alguns pontos de vista comuns a todos os povos que viveram sob o domínio dos regimes comunistas nesta parte da Europa. Com um sorriso, dou por mim a redescobrir a “lógica da batata”, perdia no meio daquelas páginas; comportamentos que antes eram no mínimo estranhos, tornam-se rapidamente evidentes, quando explicados por alguém que reúne a vontade de explicar e a capacidade de metodologicamente racionalizar uma série de estigmas que pairam ainda sobre o modus operandi destas sociedades.

No outro dia, conheci um testemunho vivo de uma outra face desta moeda. O seu nome é Marcella, e aos setenta e poucos teve a coragem e a invulgar ginástica mental  numa pessoa da sua idade para desafiar todos os princípios com que cresceu e amadureceu. Com as poupanças de uma vida inteira – as que eram possíveis nos tempos deste socialismo autoritário – comprou aos actuais inquilinos o direito de recuperar a casa que sempre havia sido da sua família, até os senhores do Partido decidirem de outra forma. Simbolicamente, a propriedade localiza-se em Vyhserad, um bairro simbólico para o nacionalismo checo. Agora, esta professora de matemática mais do que reformada, assume um papel novo: o de capitalista. Aquele apartamento, está a renová-lo. Com as suas próprias mãos e uma ténue ajuda de um marido já muito debilitado por um cancro recente. É uma heroína anónima, a Marcella. Fala inglês com uma desenvoltura que nunca pensei possível numa pessoa da sua geração. Desejo-lhe as melhores das sortes, a esta mulher que nunca imaginará como a trago no coração. Que tenha sucesso na sua nova experiência. Aparentemente merece-o.

Viver na Europa Central é uma benção para o viajante. O nome significa qualquer coisa: estando-se no centro, é com toda a facilidade que se atinge qualquer ponto do raio. Trocando isto por miúdos, é ver os preços dos vôos de ida e volta com tudo incluído e escolher: Amesterdão, 50 Eur; Copenhaga, 60 Eur; Bruxelas, 50 Eur; Sófia, 35 Euros. Entretanto, para coisas mais simplórios, há as viagens de autocarro. Com menos de 30 Eur vai-se a Wroclaw ou Cracóvia, na Polónia; ou a Hamburgo, Berlim, Dresden. Ou Viena e Bratislava. Com pouco mais chega-se a São Petersburgo e Moscovo.

Por tudo isto, já se vê, aguardem novidades aqui no Papa-Léguas. Os próximos capítulos incidirão sobre Dresden e Wroclaw. Com muitas fotografias. A não ser que o frio e a chuva estraguem a festa.

Praga. 14 de Novembro.

•Novembro 14, 2007 • Deixe um comentário

E o Inverno abateu-se sobre a região. Cinzento dia, um após outro. Chuva. Neve não, que aqui como em todo o lado o clima persiste na teimosia de estranhos costumes. Lá para a província sim, diz que já se viram flocos brancos, descendo do céu, cobrindo os campos, retirando-lhes a cor que ainda restava de Outono. Por aqui é irrelevante. “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, já lá dizia o poeta maior da literatura lusa.

Já não se dão longos passeios pelos parques, que isto de zero graus com vento a fazer questão de relembrar cada poro facial do que é frio, não é para brincadeiras. Os dias são curtos. Mas em contrapartida, as noites tornaram-se longas. E se a beleza dos edíficios da cidade antiga já não é observada como antigamente, a intensidade de uma vida social reencontrada faz-se sentir a cada semana que passa.

Ontem houve um pequeno encontro de amigos. Hoje não. Amanhã haverá. Depois de amanhã, não. Mas o fim-de-semana vai ser passado na aldeia natal do meu amigo Vitek, que me convidou para conhecer a região, e ficar em família, com os pais dele. Na realidade seremos quatro. Uma experiência que promete, e faz perceber porque é que viver em Praga não é só usufruir da estética da cidade e dos dias bonitos que esta tem para oferecer. É a renovação de um sentido de amizade há muito perdido, do reavivar de um sentimento de ser querido por mais do que as pessoas das quais não se esperaria outra coisa. É algo doce, confortável.

Por tudo isto, estas linhas têm andado curtas. E também porque me decidi a preparar um trabalho de fundo sobre Praga. Ora a manutenção deste blog nos moldes anteriores implicaria uma duplicação intolerável de escritas.

Praga. 31 de Outubro.

•Novembro 1, 2007 • Deixe um comentário

A malfadada virulência está quase vencida. Da gripe resta uma tosse irritante e uma certa obstrução das vias nasais. Estou portanto apto para sair à noite. Ora durante o dia, nas andanças rotineiras, encontrei um clube de Jazz, por coincidência paredes meias com a minha livraria de eleição na cidade, a BigBen. E à porta, um cartaz: “Today, free entrance”. Bem, bem, veio-se a verificar que era algo semelhante a publicidade enganosa, porque de graça, só mesmo a entrada para o bar. Se quisesse assistir à música ao vivo, pomposamente denominada de “concert”, teria que pagar. Ora como fui atraido pelo isco, como já estava fartissimo de estar enterrado em casa e como ando há um bom tempo com esta ideia do jazz na cabeça, saquei mesmo das duas notas de 100 coroas e comprei o bilhete.

Em boa hora o fiz, pois apesar dos vários incovenientes (já lá vamos), diverti-me à séria. A música não era grande coisa. Na realidade era noite de blues o jazz ficará para outro dia e de facto, blues europeus são uma coisa estranha. Não calça a bota com a perdigota, que dizer. Na verdade, blues blues, para serem blues, têm que ser interpretados por afro-americanos. Mas não podendo ser, pois quem não tem cão, caça com gato. Ora sucede que, não sendo eu um entendido na coisa, a rapaziada em cena não me convenceu, nem mesmo ao nível dos blues à moda europeia. E depois, ah meus senhores, aquele sistema de som metia dó. Ninguém me convence que os altifalantes não estavam mesmo rasgados. Uma coisa triste de se ouvir. Mas lá está, há momentos destes. Com o cenário completo para o caldo se entornar, e sai de lá a assobiar, ligeirinho de alegria e de frio. É que me soube bem. Música ao vivo é música ao vivo, a cerveja era barata e o ambiente muito bom. A sala tem uma acústica jeitosa, e o ambiente é extremamente intimista, precisamente o que eu preciso para apreciar um jazz ou uns blues. Sei lá, se estavam ali na sala quarenta pessoas era muito. E assim se fez uma noite diferente, que bem falta fazia para suceder aos serões febris da última semana. Já que falo do dia de hoje, vamos ser literais e contar o que se fez enquanto o sol brilhou. No par de horas de energia diurna, fui andando até à cidade antiga. E já que estava nas imediações, e, diga-se de passagem, um pouco deprimido, fui-me meter na tal BigBen, que isto de deitar fora uns tostões quando se está na mó de baixo não é terapia exclusiva das meninas. E como sempre sucede quando vou lá, sai com dois belos livros no saco. Fui logo estrear um deles, que fala, em prosa muito agradável, da História do povo checo. Subi então a meia-encosta de Petrin e abanquei-me numa das mesas da esplanada que deixou já de funcionar, mas que deixou, por enquanto, as estruturas. E só arredei pé quando o fri apertou. Para vir para casa recompôr-me e preparar-me para o clube de jazz.