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Praga. 14 de Novembro.

E o Inverno abateu-se sobre a região. Cinzento dia, um após outro. Chuva. Neve não, que aqui como em todo o lado o clima persiste na teimosia de estranhos costumes. Lá para a província sim, diz que já se viram flocos brancos, descendo do céu, cobrindo os campos, retirando-lhes a cor que ainda restava de Outono. Por aqui é irrelevante. “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, já lá dizia o poeta maior da literatura lusa.

Já não se dão longos passeios pelos parques, que isto de zero graus com vento a fazer questão de relembrar cada poro facial do que é frio, não é para brincadeiras. Os dias são curtos. Mas em contrapartida, as noites tornaram-se longas. E se a beleza dos edíficios da cidade antiga já não é observada como antigamente, a intensidade de uma vida social reencontrada faz-se sentir a cada semana que passa.

Ontem houve um pequeno encontro de amigos. Hoje não. Amanhã haverá. Depois de amanhã, não. Mas o fim-de-semana vai ser passado na aldeia natal do meu amigo Vitek, que me convidou para conhecer a região, e ficar em família, com os pais dele. Na realidade seremos quatro. Uma experiência que promete, e faz perceber porque é que viver em Praga não é só usufruir da estética da cidade e dos dias bonitos que esta tem para oferecer. É a renovação de um sentido de amizade há muito perdido, do reavivar de um sentimento de ser querido por mais do que as pessoas das quais não se esperaria outra coisa. É algo doce, confortável.

Por tudo isto, estas linhas têm andado curtas. E também porque me decidi a preparar um trabalho de fundo sobre Praga. Ora a manutenção deste blog nos moldes anteriores implicaria uma duplicação intolerável de escritas.

Praga. 31 de Outubro.

A malfadada virulência está quase vencida. Da gripe resta uma tosse irritante e uma certa obstrução das vias nasais. Estou portanto apto para sair à noite. Ora durante o dia, nas andanças rotineiras, encontrei um clube de Jazz, por coincidência paredes meias com a minha livraria de eleição na cidade, a BigBen. E à porta, um cartaz: “Today, free entrance”. Bem, bem, veio-se a verificar que era algo semelhante a publicidade enganosa, porque de graça, só mesmo a entrada para o bar. Se quisesse assistir à música ao vivo, pomposamente denominada de “concert”, teria que pagar. Ora como fui atraido pelo isco, como já estava fartissimo de estar enterrado em casa e como ando há um bom tempo com esta ideia do jazz na cabeça, saquei mesmo das duas notas de 100 coroas e comprei o bilhete.

Em boa hora o fiz, pois apesar dos vários incovenientes (já lá vamos), diverti-me à séria. A música não era grande coisa. Na realidade era noite de blues o jazz ficará para outro dia e de facto, blues europeus são uma coisa estranha. Não calça a bota com a perdigota, que dizer. Na verdade, blues blues, para serem blues, têm que ser interpretados por afro-americanos. Mas não podendo ser, pois quem não tem cão, caça com gato. Ora sucede que, não sendo eu um entendido na coisa, a rapaziada em cena não me convenceu, nem mesmo ao nível dos blues à moda europeia. E depois, ah meus senhores, aquele sistema de som metia dó. Ninguém me convence que os altifalantes não estavam mesmo rasgados. Uma coisa triste de se ouvir. Mas lá está, há momentos destes. Com o cenário completo para o caldo se entornar, e sai de lá a assobiar, ligeirinho de alegria e de frio. É que me soube bem. Música ao vivo é música ao vivo, a cerveja era barata e o ambiente muito bom. A sala tem uma acústica jeitosa, e o ambiente é extremamente intimista, precisamente o que eu preciso para apreciar um jazz ou uns blues. Sei lá, se estavam ali na sala quarenta pessoas era muito. E assim se fez uma noite diferente, que bem falta fazia para suceder aos serões febris da última semana. Já que falo do dia de hoje, vamos ser literais e contar o que se fez enquanto o sol brilhou. No par de horas de energia diurna, fui andando até à cidade antiga. E já que estava nas imediações, e, diga-se de passagem, um pouco deprimido, fui-me meter na tal BigBen, que isto de deitar fora uns tostões quando se está na mó de baixo não é terapia exclusiva das meninas. E como sempre sucede quando vou lá, sai com dois belos livros no saco. Fui logo estrear um deles, que fala, em prosa muito agradável, da História do povo checo. Subi então a meia-encosta de Petrin e abanquei-me numa das mesas da esplanada que deixou já de funcionar, mas que deixou, por enquanto, as estruturas. E só arredei pé quando o fri apertou. Para vir para casa recompôr-me e preparar-me para o clube de jazz.

Praga. 28 de Outubro.

Sai para a rua pelo meio da manhã. Depois de tantos dias cinzentões foi um novo prazer rever o sol. Coisa nova, esta saudade do grande astro, que não existe num país onde raro é um dia de chuva com pés e cabeça.

Há alguns dias tinha passado pela ilha quase frente a casa e pensado que deveria tirar por ali umas fotografias. Pois foi hoje. Já noutros anos recolhi umas imagens a partir dali e creio que é das melhores perspectivas para captar a essência de Praga. Caminhei até à extremidade da ilha, e quando a terra acabou… voltei para trás. Missão cumprida. Guardei uma boa série de imagens. E dali fui para bem longe. Apanhei o eléctrico e depois o metro para Dejvická… e depois o autocarro para Jenerálka. E internei-me no bosque.

De novo a dourada floresta de Outono. Pode começar a parecer monótono, mas não é. Pelo menos ainda não. Ver com os próprios olhos uma natureza que antes só se conhecia pelas fotografias é uma sensação única. Quando se levou uma vida inteira a desenvolver um imaginário que subitamente fica ao nosso alcance, é algo de poderoso que bate dentro de nós. A beleza destes tons dourados, por vezes a fazer lembrar cores de fogo, não tem fim. E depois, é a serenidade sem fim.

Subo a um promontório e espera-me uma surpresa: ali está um rebanho de cabras, e o som de uma flauta que se eleva… é um pastor, como nos contos infantis, que toca para o seu público exclusivo. Ninguém parece perturbar-se com a minha presença. Os animais continuam placidamente no seu pasto ininterrupto, e a música prossegue. Deixo aquele cenário para trás e prossigo o passeio pelos caminhos secretos da mata.

Páro ao descobrir um banco banhado pelo sol, e saco do livro que ando a ler. Fico uns quinze minutos. Decido atingir um cume, e para isso saio do trilho. O tapete fofo de folhas caídas amortece-me cada passo, e após o esforço, a recompensa. Chego ao alto. Mantenho-me uns momentos imóvel, e inicio a descida, por outra vertente do monte. Descer é quase sempre mais fácil. E ali isso não foi excepção. De súbito apercebo-me de um movimento. É uma corsa que corre, foge de mim, tão perto que sinto o chão estremecer com a sua passada. Segue um caminho de terra e acompanho-a com a vista durante alguns segundos. É o segundo momento alto do dia, depois do pastor músico e suas cabras encantadas. E com isto dá-se início ao caminho de regresso. Mais uma tarde bem passada. Que o resto do dia fica reservado ao padecimento da gripe.

Praga. 24 de Outubro.

Ontei deitei-me cansado. Hoje, acordei com gripe. Pesada punição para o viandante, ansioso de viver cada instante da aventura. Os olhos pesam e o corpo recusa o movimento. Após um par de horas a máquina humana põe-se finalmente em marcha. Será um dia obrigatoriamente mais curto.

Depois de um breve périplo por dois locais relativamente centrais, dirigo-me a Hadje. Ali, visito o Centro Madre Teresa de Calcutá. De seguida, está prevista uma caminhada por uns bosques que estão ali perto. Não imagino o prazer que me está reservado. A aventura até começa mal. Não encontro o acesso correcto. Esbarro na vedação de uma grande obra. Receio que se vá elevar ali um novo bloco de apartamentos ou qualquer coisa do género. Tento contornar pela esquerda, mas acabo por desistir. Decido-me a experimentar o lado oposto, já praguejando sobre o tempo e energia perdidos naquela aproximação, mas diviso um pequeno carreiro que se esgueira entre dois segmentos de vedação. Vou explorando esta alternativa, sem grande confiança. Mas a verdade é que vou avançando na direcção pretendida, e acabo por desembocar num largo caminho asfaltado. O que não é uma grande melhoria, porque a progressão na direcção correcta acabou.

Tentativa para um lado, tentativa para outro…. acabo por decidir arriscar a progressão por um vago trilho que acredito divisar a partir do caminho principal. E foi então que tudo começou. A floresta de altas choupos está coberta de folhas, e o carreiro só se divisa pela forma difusa que se antevê num certo espaçamento entre as árvores. Ando um par de centena de metros, deixando a imaginação navegar por mares surpreedentes. Penso nas séries de TV que me encantavam em tempos da meninice, e adivinho uma trupe de índios Huron a saltarem a qualquer momento sobre mim, vindos de parte incerta, como sempre sucedia nas velhas películas. Poderia ouvir o rosnar de um urso pardo mesmo ali. Não se vê vivalma. Sou eu e o mundo natural que me rodeia. Apesar do bosque se encontrar rodeado de estradas e blocos de apartamentos, só se escuta o cantar de alguns pássaros e o vento que passa sobre a copa das árvores.

Por fim encontro um caminho mais pronunciado, e uma ou outra pessoa que por ali passeia. Mas a paisagem mantém-se inalterada, dominada por aquele maravilhoso dourado acastanhado, omnipresente na floresta de Outono. Uma brisa provoca uma queda suave das folhas mais resistentes, que bailam no ar como flocos de neve. Sorrio, cheio de vontade. Estou a viver um dos melhores momentos da minha vida nesta cidade. E contudo, é a simplicidade de um bosque que me delicia. Em Portugal não temos esta Natureza. Lembro-me de um livro que me fascinava, andava eu pelos 11 anos: Ao Encontro da Natureza. Um belo volume das Selecções do Readers Digest que ao mesmo tempo me provocava uma enorme frustração, porque aquela Natureza bravia e intensa que observava nas imagens e apreendia nos textos não se encontrava ao meu alcance, naquele meu Portugal cheio de pessoas e paisagens doces.

A tarde vai longa e a gripe pressiona-me a deixar aquelas paragens. Anoto cuidadosamente coordenadas para uma próxima visita. É que para grande tristeza não trouxe uma máquina fotográfica. Terei que regressar. Quiçá quando a neve começar a cair.

Praga. 21 de Outubro.

A linha de metro amarela é extensa. Conta com vinte e duas estações, e atravessa a cidade de ponta a ponta, no sentido longitudinal. Nos seus extremos é já uma Praga rural e ao mesmo tempo industrial que encontramos. As duas lojas IKEA, tão apreciadas pelos checos, posicionam-se precisamente em Cerny Most e Zlicin, estações terminais desta linha. E hoje não andámos longe. Fomos contudo explorar a vertente campestre desta zona, tenicamente parte da grande cidade, mas sendo na realidade um pedaço de campo às portas da capital.

Saímos na penúltima estação, Stodulky, e fomos caminhando. O objectivo era a igreja Jana a Pavla . Depois de um trilho de lajes de pedra em perfeitas condições, o caminho passa a um fio de terra enlameada. Depois, desembocamos numa estrada de terra batida, cheia de grandes poças de água, que usamos durante algumas centenas de metros, para de novo termos que nos remeter a um trilho de qualidade suspeita, junto a uma quinta que está a ser utilizada para actividades equestres. Dá para perceber que entre muros se realiza uma prova de obstáculos, e de resto existem marcas evidentes do trânsito de cavalos.

O céu está cinzento, pesado, mas felizmente a chuva não se descarrega sobre nós. Na fase final de aproximação à igreja, passamos por dois idosos, que cumprimentamos com um Dobry Den, entusiasticamente correspondido nos mesmos termos. Andam às maçãs, silvestres e pequenas, que vão caindo dumas macieiras mirradas. Chegamos ao nosso destino. Ao mesmo tempo que um carro vermelho com três jovens que vão ali claramente para fumar um charro.

Depois de concluido o percurso inverso visitámos ainda a igreja de S. Jakuba, numa aldeia cujo nome ignoro, junto à estação de metro. Gostámos especialmente da escultra que encontrámos por mero acaso no regresso a Stodulky. Uma mulher desnudada que se acerca das águas.  

Foi uma experiência diferente que ficará na memória. Aquela paisagem, os encontros imprevistos, a bucólica igreja. Uma tarde bem passada nos arredores de Praga.

Depois da prolongada noite da véspera, acordar para ir apanhar o comboio foi algo tormentoso. Acordei o Thomas para me despedir, e separámo-nos com um caloroso abraço. A viagem até Sudbanhoff decorreu sem incidentes. Como sempre em Viena, as coisas funcionam bem. O eléctrico J, em Ottakring, levou-me até uma zona mais central, onde passei para o D, que me conduziu à estação. Comprei calmamente o bilhete, e dirigi-me à plataforma. Esperei um pouco até que o comboio chegasse e os funcionários o aprestassem para nova viagem. A composição passará por Praga, mas o destino final é Hamburgo. Fica a nota, para ponderar uma visita ao meu amigo Jan nos dois meses que se seguem. O bilhete custou quarenta e poucos Euros. A carruagem é composta por compartimentos. Partilho o meu com um casal de americanos, cinquentões (ou para cima disso) que andam a bater a Europa de comboio, e com um homem de negócios alemão. Vamos conversando durante toda a viagem, que passa num instantinho. Afinal, é aproxidamente equivalente a uma ida a Lisboa, partindo de Faro.O comboio detém-se em Holesovice, e não na estação central, como me tinha sido dito. Não há problema. Em vez de caminhar até casa, compro logo ali um bilhete de transportes públicos para duas semanas e entro no Metro, mesmo ao lado. Em breve estarei em Na Strudza. O André espera-me com um abraço amigo. Vou encontrar a casa um bocado mal tratada, a precisar de uma profunda limpeza. Sinto-me um pouco deprimido, mas sei que é algo temporário: o cansaço acumulado, o dia cinzento, o estado do apartamento. Claro que no dia seguinte já vejo tudo com novo entusiasmo. Não estava enganado quanto ao estado passageiro do desagrado.

Logo no primeiro dia, depois de uma tarde de acomodação e descanso, vamos fazer umas compras de produtos de limpeza e mantimentos básicos, e depois, vamos ter com uns CS’s que nos esperam. Começamos por uma cerveja na cantina universitária, depois, jantamos num dos mais belos clássicos cafés da cidade, o Louvre, inaugurado em 1902 e desde então frequentado por figuras como Kafka e Einstein. O ambiente prima pela excelência: tudo está decorado segundo o rigor que se esperaria de uma casa histórica, os funcionários cirandeiam pelas salas, transmitido uma sensação de eficiência e profissionalismo, com os seus aperaltados fatos, acorrendo rapidamente a cada cliente em necessidade. O jantar é a um só tempo barato e de elevada qualidade. O nosso amigo sueco paga a conta, reafirmando que ganhou um bom dinheiro e quer gastar algum dele. O meu prato, uma salada mista com uma série de vegetais diferentes, adequadamente temperados, acompanhados por dois fartos rolos de fiambre e queijo azul panados, custaria cerca de quatro Euros. Sem dúvida uma referência para posteriores visitas. Terminada a refeição, vamos até um clube onde muita coisa se passa: há uma série de salas, com fins diferentes para conversar, para dançar… e para ver umas mamocas a abanar a uns meros 50 cm da nossa cara. Os preços não páram de me surpreender. Ali, pode-se beber um batido de leite com fruta por cerca de um Euro e meio, e os cocktails, a escolher de entre uma variedade infindável, andam pelos 2 ou 3 Euros. E assim acaba o primeiro dia na grande Cidade.

Um dia morto. A exaustão provocada pela intensidade com que tudo tem sido vivido nas últimas semanas apodera-se de mim. Bem sei que é o último dia em Viena, mas o cansaço impede o pleno gozo destes últimos momentos. Acabo por passar o dia a vaguear sem rumo, apanhando transportes públicos ao acaso, descobrindo por mero acaso alguns pormenores novos. Mas os olhos estão postos no amanhã, anseio por ter de novo algo que se assemelhe a um lar e sei que isso vai acontecer em Praga.O jantar é de despedida. Vamos a um peculiar estabelecimento onde as bebidas são pagas e para a refeição se dá o que se achar justo. O que pode ser nada, claro. Comparece o Thomas, as amigas da véspera e ainda mais uma amiga. E vem o Flo e o meu companheiro de cama alemão. A noite vai-se alongando. As amigas vão depois do jantar, mas os restantes procuram outro pouso. Acabamos a beber cerveja num espaço vazio, até bem tarde. O Flo despede-se com um abraço caloroso. E nós vamos de novo experimentar a mestria do Thomas em encontrar transportes nocturnos para Ottakring.

Acordo já tarde, depois da noite intensa da véspera, como aliás se tornou um hábito em Viena. Com o que resta da manhã não há muito a fazer, mas aventuro-me um pouco. Sempre com os olhos postos no relógio, pois que pelas duas da tarde vou-me encontrar com os meus companheiros de apartamento para uma passeada pelos parques além Danúbio. Divertimo-nos bastante nessa tarde. Chegamos perto da enorme torre da televisão. A ascensão custa €6. E um salto de… falha-me a palavra, mas vocês sabem… aquela brincadeirinha de saltar de uma ponte ou algodo género com um elástico preso à perna… pois… eles fazer isso a partir do topo da torre. E custa uma pipa de massa.

O dia está excelente e os vienenses aproveitam: muitos passam por nós de bicicleta, enquanto outros preferem os patins em linha. Nos relvados joga-se à bola, descansa-se. É um ambiente de lazer, que se estende por quilómetros e quilómetros. Chegamos até ao complexo de prédios que cresceu em redor do edíficio das Nações Unidas, onde está sedeada a comissão atómica. Para trás deixamos uma enorme cruz, construida no local onde o Papa deu missa, em 1987. Estamos cansados e esfomeados, e debatemos o programa para o resto dia. Inicialmente deveriamos jantar no Tunnel, um espaço onde a comunidade de couchsurfers vienenses se reúne nos dias 7 de cada mês. Mas ainda é cedo para ir até lá e a fomeca aperta. Assim sendo, decidimos governar-nos com a prata da casa, ou seja, com os mantimentos que o Thomas tem em casa. E o resultado não poderia ser melhor: partilhamos um pão que compramos antes de chegarmos a casa numa loja turca, e os rapazes preparam uma salada enquanto eu tomo um duche. Partilhamos a saborosa refeição com prazer sincero, apreciando a companhia mútua. Para acompanhar a salada são colocados em cima da mesa boiões com os mais variados sabores: creme de chocolate, pastas salgadas, manteiga de amendoim, manteiga com yogurte.

Está agora na hora de seguirmos para o Tunnel. E que agradável é. Todos os dias há música ao vivo, sobretudo jazz. Quando chegamos a sala está ainda pouco composta, mas aos poucos vai-se enchendo. E isso inclui as duas amigas do Thomas que chegam para nos fazer companhia. Uma alemã e uma austriaca, que ficam comosco até o espectáculo acabar. Têm um exame de admissão na universidade no dia seguinte, e não podem prolongar a noite em demasia. Já eu e o Thomas damos por nós a cear pelas duas da manhã. Uma pizza “caseira” de pepperoni e outras delícias, por cerca de 4 euros! Depois é hora de retornar. O Thomas conhece todos os truques e percursos dos transportes urbanos. Andamos até chegar a uma paragem onde deverá passar um autocarro nocturno. E assim sucede. Em breve estaremos em casa.

Último dia com o Flo. Tenho pena de mudar, senti-me aqui muito bem, pelo ambiente intimista, quase feito à minha medida, mas também pelo anfitrião, pela localização priviligiada, pelo accesso Internet rápido. É Sábado, e à tarde ele vai até à sua cidade natal, jogar uma partida de basquetebol com velhos amigos. Mas antes disso visitaremos juntos Schönbrunn, o antigo palácio imperial que associarei sempre à figura de Sissi, a imperatriz encarnada por Rommy Schneider no filme com o mesmo nome, quando ela diz: “Vamos voltar para Schönbrunn, onde fui tão feliz.” Antes disso contudo visitarei o museu militar, já que ontem se encontrava encerrado.Tento acordar cedo para tirar o máximo partido do dia, mas só parcialmente o consigo.

Chego ao museu pouco depois da sua abertura e compro o ingresso e um suplemento para poder fotografar sem flash o que desejar. Custa-me cerca de €6,50. A visita revela-se algo decepcionante. A decoração do palácio onde se encontra a exposição é riquissima, mas as salas são demasiado amplas para o conteúdo que lhes é confiado. As peças encontram-se assim esparsas, deixando-me uma sensação de vazio. Por outro lado a inexistência de legendas em inglês não ajuda em nada a melhorar a imagem que o museu me vai deixando. Quando saio para o exterior, em busca do parque de tanques, a decepção antinge o nível máximo: não encontro ali veículos do exército alemão da II Guerra Mundial, como era referido no Guia American Express. O material ali depositado está ao abandono, assemelhando-se em alguns casos a amontoados de ferro velho, sem qualquer atavio ou brio. Uma lástima. A visita só não é considerada como tempo e odinheiro perdido porque mesmo assim me são dadas a ver algumas peças com interesse relacionadas com a II Guerra Mundial. Quando saio do museu o tempo já não é muito.

Apresso-me em direcção a Schönbrunn onde o Flo me aguarda às 11 horas. Mas perco-me na transição do eléctrico para o metropolitano e acabo por me atrasar vinte minutos. De início encontro-me algo decepcionado com o palácio. Visto de perto, não parece grande espingarda. É ao afastar-me que ele ganha majestosidade, e os seus jardins amplos e recheados de atracções são com toda a justiça considerados Património Mundial. Calcorreamos tudo aquilo, percorrendo quilómetros e quilómetros. Encontramos a velha fonte que deu o nome ao palácio, a passamos por zonas repletas de esquilos. Na extremidade oposta ao palácio, encontramos muitos turistas, incluindo um vasto grupo de portugueses. Vai-se fazendo tarde e temos que regressar: ele tem que se encontrar com um amigo que lhe dará boleia, e eu deverei ir recolher as minhas coisas para me encontrar com o Thomas pelas 15:00 na estação de metro de Ottakring. Deixo o palácio para trás, com uma certa pena de não lhe poder dedicar o tempo que gostaria. Para além de estar com o Flo, o dia e a hora são de demasiados turistas. Gostaria de respirar o romantismo que guardo na minha memória associado aos filmes da série Sissi que tiveram este local como cenário. Talvez uma próxima vez…

Tento adaptar-me à minha próxima residência. O ambiente aqui é evidentemente mais liberal: estão lá dois marmanjos, um de saida, e outro com o qual terei que partilhar o sofá. Dois brancos de rasta, um alemão e um grego. Saem para uma volta pela cidade pouco depois de eu chegar. E passado um bocado sigo-lhes o exemplo. Sinto-me bem, e caminho com gosto pelas ruas. O tempo continua excelente. Aproveito para me aproximar de uma das inúmeras zonas nobres da cidade, áreas que habitualmente evito para fugir às multidões de turistas, mas que em Viena são incontonáveis. A sumptuosidade é de tal forma que se torna irresistível. Apesar de trazer comigo nesta viagem um guia de Viena, o ritmo a que tudo sucede é tão elevado que não há a menor hipótese de planear as visitas, nem sequer de me aperceber exactamente o que estou a ver. Numa praça da cidade vejo um monumento aos soldados soviéticos que aqui tombaram em combate na II Guerra Mundial, algo de majestoso, criado por detrás de uma fonte que jorra uma cortina de água impressionante. Tudo isto, muito próximo do palácio de Belvedere, que não terei a oportunidade de visitar no decorrer da minha estadia.

Antes de chegar aqui encontrei por mero acaso um detalhe magnífico: num jardim de um pequeno palacete observo com curiosidade um pincel gigante, que se encostava a uma palete de cores, baseada num arbusto sobre o qual se encontravam grupos de flores; mesmo ali ao lado, de novo formadas por vegetação verde, estão as telas, pintadas a flores. Soube mais tarde, pelo Thomas, que se tratava da sede da associação de jardineiros da cidade. O sol põe-se e o telefone toca… é o meu anfitrião a dar-me indicações sobre a melhor forma para chegar até eles. Vamos tomar um copo, comer qualquer coisa antes. Escolhemos um restaurante israelita, bastante informal. A comida é excelente, e, uma vez mais, bastante mais barata do que seria em Portugal. Pago por uma soberba “pita” recheada até ao limite com ingredientes vegetarianos algo como €3,30. Depois, para acabar a noite vamos até um bizarro bar, bastante bem composto, onde encontramos uma mesa livre mesmo à justa. É o final de mais um dia.

O dia começa mal. Atravessei a cidade para visitar o Museu Militar e tudo isto para o encontrar encerrado. É Sexta-feira. Pensava que o encerramento às 2ªs feiras era uma regra “universal” para os museus. Afastada a primeira hipótese do programa, sigo para a segunda: uma visita ao cemitério central. O tempo voa, porque este local me tomará o resto do dia. A sua extensão é enorme. No centro, ergue-se um edíficio religioso majestoso, e logo nas suas margens se inicia uma outra Áustria, rural, paredes meias com um dos principais nós ferroviários da capital do país.

Por volta das seis da tarde estou em casa. Tornou-se uma rotina, este “timing”. É a hora de chegada do Flo, e não há uma chave para mim, pelo que tentamos sincronizar os nossos horários. Hoje fomos jantar a uma “tasca” espantosa. Diz-me o anfitrião que é um típico restaurante vienense, retirando a palavra “turístico” da equação. Trata-se de uma exploração familiar e é a dona

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